Visitas da Dy

domingo, 10 de setembro de 2017

Meu Mundo



         
          Meu mundo são quatro paredes, pelas quais desenhei cometas e estrelas cadentes, pelas quais escrevi bilhetes e poemas. Pelas quais pendurei molduras vazias, buscando um rosto diferente de cada vez.
          Minhas quatro paredes... eis aí a definição de mundo. Nada de grandes espaços, uma fronteira para o mundo, porta sem chave, para quem quiser ficar, entrar, uma janela para o infinito, para que os versos criem asas e as músicas pousem na soleira.
          Eu que não gosto da primavera, hoje recebo flores e pássaros para o café da manhã. Recebo luzes ofuscantes e quentes e vivas e alegres, como aquilo que me move nesse momento. Toco cintilâncias contentes quando me espreguiço nesse domingo.
Eu que pouco me arrisco para fora desse quarto, que o chamo de mundo, que o decoro com toques do mundo: corujas, elefantes, arabescos de mil e uma noites e cores de van Gogh, tudo se harmoniza nesse mundo que eu criei e que, às vezes está aberto à visitação. Hoje, talvez.
          Eu que carrego um colar de prata, um símbolo da chama inquieta que sou, também cedo às pedras da Lua e aos olhos de tigre. Retiro deles energias e aprendizados: a rigidez não exclui a beleza.
          Eu que sou de outonos e invernos, pintei paredes ensolaradas no meu mundo: gosto dos contornos luminosos das tardes findando. Gosto dos alaranjados esperançosos de sabores noturnos que não se podem conter.
          Eu que gosto de cores e sons, de entrelinhas e manhas, serpenteio pela casa como a bailarina se move na música, com certa leveza e confiança: conheço meu espaço, conheço meu mundo.

          Eu que flerto com as tristezas alheias, hoje serei só novidades, serei mais amplitude, serei mais amor que posso ser: entram flores e borboletas pela minha janela. Contaminaram-me com suas asas. Agora só desejo voar pelo dia que me invade, mas pousar, com calma, mais tarde, nesse meu mundo, nas quatro paredes que me cercam e me guardam preciosa.

sábado, 9 de setembro de 2017

Seus Olhos



          Agora, tendo o direito à palavra, de maneira mais clara, mais livre, não sei bem o que fazer. Sou como os pés do caminhante: sei que preciso ir, mas pouco importa o caminho. Em nosso caso, sei o que devo dizer, mas já pouco importa.
          Em verdade, foi em um dia como esse que eu saltei seu olhar a dentro e percebi que havia inventado o amor. Não no meu tempo. Bem antes. Não para mim, para alguém que se foi. Não com as letras de meu nome, mas com sons emudecidos.
           Eu era um lapso no espaço-tempo de seu coração. Se é que cheguei a tocá-lo. Fui uma tentativa de se convencer que tudo passa, mas, na borda de seus olhos, isso não estava escrito e eu pulei. Se soubesse que a mim só caberiam as margens, sequer teria molhado meus lábios. Se soubesse que depois do mergulho só viriam as sombras, eu não teria lhe doado tanta luz.
           Não é um arrependimento que me corre, mas uma vontade de interromper os questionamentos. Uma vontade de acolher essas mágoas nos braços, de transforma-las em novidades, de ouvir suas dores pela última vez, calando-as com meu sorriso, mordendo-as para que deixassem de existir.
            Agora que desprendi-me de toda chama que aquecia meu peito quando ouvia seu nome, posso dizê-lo sem que me corram vontades incompletas pelo rosto. Posso até dizer o quanto é lindo ver seu reflexo atrás de um copo, meio disforme, mas completo, de um modo que eu não percebia, embora tivesse me esforçado.
            Em verdade, o que mais gosto em seus olhos é o fato de ter inventado o amor. De tê-lo vivido a seu modo, a seu tempo, ao seu ritmo e de, ainda que dormente, não tê-lo abandonado. Ele está aí, eu sei. Vestiu-se de medo, mas ainda respira.

            Agora que visitei seus espaços mais humanos, olho pra mim. Questiono se conheço o que chamam de amor. E lamento o meu desconhecimento de causa. Talvez, em todos os meus passos eu só tenha conhecido desenganos, só tenha experimentado os contos encantados, mas, em verdade, nunca tenha me deixado encantar. Faltam-me olhos como os seus.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Coleção




Experimentada a crueza do mundo, as crueldades vãs, sem vantagens ou ganhos, era para o coração cansar de apanhar, parar de sangrar, estancar, se acostumar. Ainda conservaria as dores, as lembranças. Ainda empalideceria ao ouvir passos, ainda tremeria com aquela voz, mas, aos poucos, secaria a fonte.
O cansaço deveria fazer algum efeito, anestesiar, desmoronar os castelos de sonhos, das cartas não escritas, das não respondidas. As pedras dos caminhos deveriam quebrar o restante dos sentimentos, juntar-se aos pedaços de mim no chão, misturar as peças do quebra-cabeça da vida e me fazer parar.
Depois da badalada do relógio na madruga fria e insone eu deveria só dormir. Deveria desistir das camuflagens noturnas, mas ainda sinto que as tristezas não se encerram e que eu não sei para onde irão, mas me abandonarão.
Eu sei que deveria deixar tudo voando, tudo sair pela janela, tudo explodir em migalhas, mas, diante dos quadros estáticos, eu passo, pinto a vida, sou tinta e mesmo sabendo que as palavras não pousarão em seus ouvidos, que as saudades vãs não lhe tocarão a pele, resistirei.
Eu sei que deveria apagar tantas coisas entre nomes e telefones, mas as lembranças não irão junto, então, as faço coleção e as deixo aqui, se (de)morando em mim, partes minhas, histórias minhas, lamentos meus, chuva de verão na vidraça de meus olhos-paisagem.
Eu sei que deveria cessar o canto-pranto-grito, mas ainda sobra fôlego para chegar até o fim do caminho, onde os ecos do passado se calam e o oco do peito se preenche com a esperança madura de quem soube engolir o azedo-verde.

Deveria ser tudo pluma, mas o ar é denso quando não se aprende a respirar e só agora, sem ter as mãos atadas às suas é que toco o chão quando salto do céu, quando meu vestido paraquedas estaciona no chão do quarto.

sábado, 2 de setembro de 2017

Infindável




Olhava o relógio tão fixa quanto uma estrela na imensidão. Sentia e não sabia explicar. Era longa como as voltas dos ponteiros. Era curto o tempo diante de tudo o que sentia.
Imensurável tempo. Imensurável sentimento. Parecia dor de si mesma. Parecia prisão, aquele corpo que a obrigava ser entre linhas bem determinadas: retas paralelas, alongadas pernas e braços. Algumas curvas, convite para mãos e toques aveludados. Era, assim, uma prisão comum como todos os outros corpos que conhecia. Mas tinha, em si mesma, ganas de liberdade.
Diante do relógio, sabia que tudo era eterno porque se estendia além do instante marcado pelos ponteiros e sabia que sentia muito mais do que podia pontuar.
Sorvia da noite os afagos que desconhecia em realidade. Imaginava-se entre braços, dedos tocando seus pensamentos enquanto pairava na imensidão da cama envolta de breu. Imaginava-se alada, acolhida, amada e na melhor de todas as noites, embriagada de um amor que lhe sobressaía ao peito, selvagem, como seu coração indomável e, por isso, solitário.            

Sentia pena de si mesma por experimentar a solidão. Amava-se ainda mais por saber-se livre. Orgulhava-se por conseguir equilibrar-se na valsa que a vida era, com suas voltas e caprichos e ela ali, ritmada pelos ponteiros marcando um tempo (in)findo.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Poço sem Fundo



Estou num poço sem fundo chamado noite. A luz foi aprisionada em algum lugar desse poço.
À sua beira, tento, em vão, salvar os resquícios de luz que me acalmam. Não toco a água nem vejo o fundo.
Ao longe há uma moeda disforme, agitada como meus pensamentos. É uma projeção ilusória, mas me encanta. No fundo do poço mora a lua ou é lá que eu, por engano, descobrirei que a vida é um sopro?
Estou à beira do poço que engoliu a luz e a aprisionou. À beira da noite que me enfeitiçou. Que faço eu, Moura sem encantos, para dissipar o breu?
Sou parte do vazio que ecoa nesse poço: os luzeiros do céu embelezam, mas também se apagam. É a certeza de que há um ciclo prefeito em todas as coisas e que a função do homem é nascer-buscar-morrer como o dia. Como a noite.
Estou à beira dos limites de água e céu, despedindo-me da terra. E eu tenho fome. E eu tenho sede. Quero engolir metade do mundo de uma vez só e devolver a luz ao céu...
Quero beber toda essa água que teima em afogar as mágoas e sufocar-me só daquilo que é bom.                       

Estou à beira da noite, mas já ouço o dia. Encontrei a palidez da primeira Estrela despertar e estendi-lhe a mão. Vamos juntas rasgar o céu e viver de luminosidades quase sonoras.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Carta de amor



Sempre quis escrever uma carta de amor. Cometer sinceridades tamanhas, que não se pudesse medir ou contar.      
Sempre quis escolher o papel mais bonito, a cor da caneta, borrifar o perfume favorito e sorrir leve, como quem só fica presa ao chão pela simples obrigação de existir, já que o ato de viver mesmo ocorre entre uma e outra constelação.
Sempre quis ter o cuidado de não precisar escolher tanto as palavras, não me preocupar com métricas e rimas e pontuação... É que, penso eu, as cartas de amor fazem sentido por si só. Por sua existência, fazem-se perfeitas, (in)coerentemente bem colocadas sobre a mesa ou entre flores. Mas a minha carta se negaria aos clichês...
Nela não teria uma afirmação se quer sobre o amor. Não haveria uma promessa, uma gota de nada além de honestidade. Uma honestidade crua, tão transparente que chegaria a doer.
Nada de "eu te amo" ou "pra sempre". Tudo de "te compreendo", "estou tentando" e "por favor, me ajude". É que eu defino o amor como uma tentativa de entrega que depende essencialmente do outro. Da disposição. Do cuidado. Da atenção. Não cabem as fórmulas, as projeções, os planos todos. Cabem esperas e uma luta constante contra essa minha ansiedade sobre o bom dia de amanhã.

Eu escreveria minha carta sem maiores pretensões a não ser de que fosse lida. Com sorte, respondida, mas isso, é via de mão única: ela vai, se volta, ninguém sabe... Escreveria. Como faço agora: confissão aberta de quem não teme despedaçar o peito e entregaria num dia de feira, comum. Sem data especial ou festa, porque eu ainda acredito que todo dia é dia amor.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

As Faces de Janus: Entre o início e o fim, resisto





Cá estamos nós a experimentar o difícil passo sobre o fio da navalha afiada que é o momento em que se golpeia o encantamento e se vislumbra o real esgotamento. Cá estou eu, encarando o papel, transferindo para ele minhas reflexões, como se ele fosse meu espelho.
Não sei bem se cabe afirmar que amor e ódio são faces da mesma moeda, mas asseguro: o encantamento é face gêmea, siamesa, do desolamento. Já adianto que a mim isso pressupõe um crescimento.
Como o deus romano Janus e suas duas faces, contemplamos o início e o fim e já não sabemos se estar no meio disso tudo é benefício, aprendizado ou mera formalidade.
Há em todo início verde, encantamentos de madrugadas tantas, contos de fios de miçanga, tão bem feitos que nem se percebem as teias. Há aquele momento perfeito, os olhares desejosos de futuros, descobrindo-se seres diferentemente próximos e belos e livres e intensos.
Há um quase endeusamento. Todo degrau de escada é altar. Todo riso é cântico sagrado. Toda fala, poesia. E, faz-se do outro um ídolo, um amuleto bom, a boa sorte de todo o dia.
E vislumbra-se a juventude estampada e feliz de quem ainda crê no benefício da dúvida. De quem ainda ouve a tempestade como sinfonia e faz das gotas de chuva elixir divino escorrendo no canto da boca molhada pelo beijo.
Mas a tempestade segue seu caminho e despeja sobre nós bem mais que água transparente. Derrama inquietudes. Derrama sombras. Esconde o nosso sol e a voz do trovão encobre a melodiosa rima que ouvíamos um da boca do outro.
Não que isso seja ruim. Não que isso seja o fim. Não que seja a tragédia anunciada, mas é a outra face de Janus a nos sorrir ou a nos mordiscar os sentidos.
Caem sobre nós cântaros de realidades, lavam-se as maquiagens, emudecem-se os sons. Somos confrontados com a humanidade (a nossa, a do outro, a do mundo). E essa humanidade pode ser cruel, por excesso ou escassez, porque não obedece aos parâmetros que sonhamos.
O ídolo se desfaz. Herói vira vilão. O amor se esquece que era poesia, estaciona no bom dia, agoniza na frustração nossa de todo-o-dia. Mas não é o fim. É a transmutação da projeção ao real. É a solidificação das essências.
Se somos seres apaixonados, flertamos com Janus e beijamos suas faces: do amor extremo ao desprezo, precisamos do equilíbrio.

Ao encarar Janus experimento o déjà-vu, de minhas tantas histórias e entre o início e o fim, padeço, cresço, resisto e busco o tal equilíbrio. A esse, longe de ser apenas sonhos, longe de ser apenas dureza, sou salva. Somos todos salvos pela coerência e a dádiva de sermos humanos e poder, sobretudo, refletirmos e (re)construirmos de novo e de novo. 

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Cetim



Salto do céu e toco o chão.
Meu vestido paraquedas estaciona no assoalho.
Estou entre o cansaço e o desafio,
Entre o que imagina e o que deixo descobrir.
Se me cabem suas interrogações,
Faço minhas as exclamações.
Desmorono pensamentos quebrados
Desses que pareciam perdidos ao meio-dia,
Encontrados no meio do dia, se (de)morando nos olhos.
Sou brincadeira de quente e frio,
Verão-inverno, estações desnorteadas.
Se o coração precisava sangrar,
Desfez-se a necessidade última de gritar.
Entrego sorrisos bordados em tecidos leves
E junto ao chão, ao vestido e ao tecido sou canção.
O ritmo de um grito oco, passado, não me assusta mais.
Aprendi a domar as dobras do tempo pra lá de onde enxergo
E é aqui, nesse instante-espaço que salto do céu e toco o chão,
Que sou mais eu do que nunca: liberdades em cetim,

Algo entre o brilho e os olhos fechados.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Geografia




Quando foi que nos importamos com distâncias?
Quando foi que entre nós se fizeram essas distâncias?
Ainda me lembro de contar as luas do calendário,
De contar os dias pelo som de sua voz em meus ouvidos.
Lembro-me de ser a gargalhada que você jurava linda
E que nascia só pra lhe ver feliz.
Ainda lembro da luz de meus olhos no espelho,
Do beijo marcado no queixo,
Da mão segurando meu medo,
Seu dedo contornando meu rosto, organizando meu cabelo.
Lembro de lhe contar meus planos,
De sonhar absurdos, de me assustar com sombras e barulhos,
Mas ter sua proteção.
Lembro de termos o mesmo passo
Lembro que distâncias eram sempre poucas
Lembro até de saltar abismos,
Mas agora não há salto alto possível
Nem a meus pés, nem a esse precipício.
Agora é tudo vago, largo, vazio
Agora é tudo frio e a distância cresce.                        

Parece que vamos ter que reaprender a geografia.

domingo, 27 de agosto de 2017

Entendimentos



Não. Você não entende nada. Não entende porque eu não expliquei. Nem tive tempo. Faltou vontade. Em meus dias de transparências (as que vesti pra você) e as que fui, achei que bulas e manuais fossem dispensáveis.
Não, você não entende nada porque era alheio a todo sentimento. Pouco sabia das dores ou dos amores, mesmo eu tendo tentado traduzí-los a você. O mundo gira e tudo, hora ou outra, volta ao seu lugar. E todos, hora ou outra conhecerão tudo o que há. 
Só agora conhece essa sensação de vazio? Ela raramente me abandona... Só agora experimentou os abandonos e as sombras que corações selvagens têm como rotina e companhia? Eis aí o que vivo, indomável coração pulsante, que não corre pelas veias porque sabe que não voltaria ao seu lugar, mas que me empurra rumo ao que (nem sempre sei que) anseio. 
Talvez agora você compreenda porque o som da luz do dia me incomoda tanto: ele não me deixa pairar sobre o cotidiano. Ele me força em espaços formatados e não caibo nesses lugares. Nasci alada, expansão, sou tanto dos silêncios noturnos que me sobram estrelas.
Não, você não entende nada porque não dá corda ao dia. Não sabe ouvir o ritmo que me move e nem compreenderia a dança leve de meus olhos sobre seu contorno enquanto dormia longe de mim. Assim, do meu jeito sufocado e quase calado eu o tocava à distância, sentindo sem, de fato, possuir. 
Sou de serenas alucinações poéticas. Um quê de praticidade e impulso bem calculados de nada: avanço suicida do que se sente. E ninguém entende... 
Não, você não entende a dor que agora bebe afogada no copo. Eu já a conheci. Já a destilei pra você, já tirei o extrato mais amargo e converti em minhas poucas doçuras, mas pouco importa o esforço... o descarte nunca tem valor posto à mesa.

Não, você não vai entender que me fiz seu espelho e lhe devolvo a paisagem que me mostra. Seus olhos se fecharam para o que eu ainda nem havia dito e, agora, ao som de seu próprio eco, são surdos os meus ouvidos.
Não, você não entende porque, no fundo, acha que é melhor a estagnação do que se debater em tentativas e, por gostar tanto do que sempre é, preferiu fincar raízes, enquanto eu me podei para criar asas. Sobrevoarei você, estático querer.

sábado, 26 de agosto de 2017

Balada do Sono Tranquilo




Segura minha mão até eu dormir nesse quase escuro que é meu quarto, nesse quase reino que é minha cama.
Segura minha mão pra eu não ter medo do escuro, não saber que já fui sozinha, não me render à tristeza.                     
Segura minha mão e conta uma história de como foi seu dia, pra eu dormir embalada em sua voz macia, seu aconchego de palavras, meu ninho aveludado.
Segura minha mão pra eu não lhe perder entre os dedos, pra eu saber que é meu por agora, pra eu não pensar no correr das horas.
Segura minha mão, que eu ainda sou pequena, que eu ainda sou menina, que tenho sonhos de algodão, mas gosto daqueles que se vendem nas padarias.
Segura minha mão enquanto caio, apagando, nessa noite longa, enquanto me desligo da agitação do dia, enquanto me desnudo de um pedaço de vida...

Segura minha mão até eu me entregar nesse sono tranquilo, até eu esquecer que queria ser sua bailarina, até que eu possa acordar como pássaro-menina pousada no seu braço-ninho e seja, de novo, inspirada pelo novo dia.

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Pólvora


Não sei mais o que sou quando lhe vejo:
Se a pólvora consumida por seus olhos quentes,
Se o fogo que se alastra pelo meu corpo.
Sou um incêndio iniciado por sua boca.


quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Desordem



Era pra ser um poema, mas é uma desordem.
Sei o que me inspira, mas não o que me traduz.
Como, então, fazer-me clara?
Como, então, desnudar a alma?
Como, então, ser mais do que essa superfície?
Não foi só a pele que me tocou,
Mas minhas profundidades
E não tenho mais palavras.
Não foi só aos meus olhos que alegrou,
Mas minhas intensidades
E agora só uso a linha d'água para transbordo.
Não foi só um hoje que vivi, um breve instante,
Mas longas jornadas que se findaram ali.
Eu era uma busca desesperada por não sei o quê        
Tornei-me o grande encontro de nada que de repente era tudo
Era pra ser um poema, ter rima, não faltar tinta,
Mas é só uma desordem limitada pelas margens que nem são minhas.
Agora volto a ser aprendiz, dominar encantos, medir prantos
Volto a não saber mais nada e a aceitar isso como dádiva.
Agora não sei onde estou e rasguei todos os mapas.
Agora larguei-me à deriva nessa larga avenida.
Agora escrevo em guardanapos e paredes,
Povôo tetos com estrelas que saem das pontas de meus dedos.
Agora salto as horas das noites como dragões sobre as casas:
Tenho asas que me levam a qualquer canto,
Tenho um fogo que carrego e me inflama.                           
Tenho pouco mais que uma bagunça cotidiana.

Era pra ser um poema, mas sinto que sou uma desordem.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Chama Viva



Carrego seu afeto em meu coração,                             
Mas o que me fascina é o calor de suas mãos.
É o deslizar que elas dançam
De meus ombros a meus quadris.
É da força pouca que me imprimem
Enquanto me morde a boca             
E sou toda arrepios,
E sou toda entrega
E sou toda sentidos.
Extrapolam-me a boca todos os meus desejos
Faltam-me as palavras, os ares, os ais
Sou indefinidas sensações
Confusas certezas de que quero mais
Sou a moura encantada da fonte refrescante
Deixando que beba da água que sou guardiã
Sou moça, bela, mulher-madura, anciã
Sou a que se estende sob seus olhos, delicada cortesã
Sou fogo que queima agora
Chama viva, chama meu nome

E serei bem mais do que pode esperar...

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Peleja



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Eu vi a Estrela da Manhã rasgando o céu.
Eu estava lá, bem perto dela, voando.
Eu a vi em luta contra a escuridão,
Rasgando o véu da noite,
Parindo o dia e sua claridade.
Eu vi a derradeira hora,
O último suspiro noturno,
Que era também o choro primeiro do que é novo.
Eu vi a terra quase estremecer diante da beleza.
Vi seus olhos castanhos nas sombras
Que escorriam pelas areias do deserto.
Vi sua força de beduíno em cada curva do vento
E me fiz silenciosa em encanto e contentamento.  
Vi a dança de meus sonhos despertos,
Minhas loucuras sãs e verdades vãs
Vi a cidade despertar para sua rotina
E ninguém perceber que céu e terra lutam...
Ninguém perceber que a Estrela da Manhã peleja por nós,
Que ela se doa e abre caminho para o Sol,
Que ela é resiliente e deixa de brilhar
Quando o primeiro homem sai da cama.
Eu vi os homens esquecendo o brilho nos olhos,
Esquecendo palavras sutis.
Vi o apagamento da chama do amor,
Mas sei que ele é como a Estrela da Manhã:
Ofusca o brilho e não deixa de existir,
Finge esquecimentos, mas sempre está ali,
Vigilante, pelejando por nós,
Rasgando os céus e as tempestades

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Bordô



Toma-me antes pela borda do corpo do que pela borda do copo. Dedilha antes os meus contornos do que os limites dessa cama. Experimenta antes ser refletido em minha retina do que saltar de minha linha d'água, escorrendo pelo rosto.
Temos aqui o peso da escolha: de um lado desejo, tentativa e deleite, de outro, a dúvida, o medo e o eterno se...
Feche seus olhos, mas esteja consciente. Tape-me a boca com o bordô que lhe convém seja gastando meu batom, seja colhendo minhas palavras silenciosas.
Seja aquilo que planejou ou tudo o que desistiu. Improvise-me como sendo sua e compreenda o que eu chamo de infinito.



terça-feira, 25 de julho de 2017

Kairós



Vira o relógio a página do calendário.                       
Arrastam as badaladas um tanto de anos                       
Há quem se importe com a medida do tempo                       
Há quem se importe só com a qualidade do tempo                       
A mim bastam as pessoas que conheço ao longo do tempo:                       
As histórias tantas,                       
As risadas frouxas ou brandas                       
Os abraços pra lá de apertados, de consolo, de afeto, de transbordo                                               
A mim importam os amores todos
Ainda que tenham sido poucos
Ainda que tenham sido apenas meus
Existiram e hoje repousam em meus sonhos.
Há amores que só existiram para virar poesia.
E eu sou domadora de palavras,
Colecionadora de versos,
Cuidadora de amores vãos,

Contando as voltas do tempo

sábado, 22 de julho de 2017

Alcance



Se pudesse te provar,
Seu lugar seria minha cama:
Ninho aconchegante de histórias.
Experimentaria suas palavras direto da fonte,
Colhendo de sua boca bem mais que promessas.
Se fosse para provar algo, começaria por seus contornos
E a beleza de sua silhueta na sombra:
Mapa de rotas desconhecidas
Só desvendadas pelo toque,
Só possíveis pelas pontas de meus dedos.
Se pudesse lhe fazer coisa-minha, seria paralelas:
Desde as retas que se cruzam
Às pernas nas quais me embolo
Porque ambas são caminhos:
E eu que não sei por onde ando,
Só tenho ciência de onde quero chegar

E você é o tempo-espaço-lugar que eu gostaria de alcançar.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Inverno




Não basta o frio da estação que castiga meu corpo, preciso lidar com as outras frentes frias que me paralisam. Para as baixas temperaturas combino um cachecol com uma meia surrada, um moletom com um jeans e a calça de pijamas por baixo. Uso luvas e touca. Bebo um café. Vários ao longo do dia. Rogo uma praga. Maldigo a estação e desejo o verão, mesmo sabendo que o logro se repetirá, também, contra o sol.
Baixaram-me as temperaturas dos sentimentos e já não os sei distinguir no necrotério-coração. São corpos gélidos e pálidos sobre a mesa do que fui, forrada dos planos que nunca completei.
Não adianta sobrepor o fio de vida que ainda me resta a essas vãs esperanças que ainda teimam em suspirar. Estão agonizando, eu sei. Assim com eu, elas tremem de frio.
Dos calores de outrora, não tenho, senão, lembranças... O coração-fornalha se acendia ao menor sinal do amor, espalhava suas brasas pelo meu rosto, atravessava-me a espinha com um vigor que me estremecia. E eu era pouco menos que uma incandescência de intensa felicidade...
Hoje, creio que arrasto correntes, conto os cubos de gelo no copo cheio de uma bebida qualquer. Reclamo do frio e me valho desses alcoolismos baratos para aquecer não sei o quê, já que eles entorpecem o que já nem lembro ou será que revivem o que eu penso ter esquecido?
Tremo com a melodia do vento em minhas orelhas no caminho para casa. Mordo os lábios queimados pelo frio e esfrego as mãos. Volto a lembrar de quando as mãos tinham outras entrelaçadas. Sorrio sem motivo. Bebo mais um gole da lembrança perdida.
Quero morder um pedaço inteiro do mundo, mastigar as pessoas que me aborrecem. Beijar as que quero bem. Quero engolir aos montes um sem fim de sentimentos para que me reaqueçam. O coração dá sinal de vida. Parece reaquecer a parte de mim que estava esquecida.
Não lido bem com esses meus rompantes sentimentalistas, mas gosto do calor humano que vem de mim e que recebo dos outros quando sorrio. Ganho um bom dia e as coisas começam a ganhar sentido.

O que me faltava era um fiapo qualquer de reciprocidade que encontrei no espelho-vitrine que olhei e de onde veio o sorriso-reflexo. O que me faltava era reacender em mim a chama que sempre fui. Talvez eu volte a ser incêndios.