Visitas da Dy

terça-feira, 14 de novembro de 2017

A Noite



Esconde, a noite, com suas carícias,
As dores, os tratos e trapos.
Esconde as cicatrizes e as amarras,
Esconde as asas partidas e as bebidas amargas,
Salga ainda mais a taça de lágrimas.
Mas chove lá fora.
A alma lava com a prece que cai do céu:
Logo é dia, menina, e a coragem lhe envolverá como véu.
Há de se ter fé e vida, alma e ação.
Levanta desse seu chão,
Voa alto, pra longe da desilusão.
Eu sei que o mundo não é aquarela,
Mas pela luz de seu sorriso,
Há de se pintar um sol bem maior que sua janela
Então, menina, beba da noite apenas o que é dela:
Parte de solidão, parte de recomposição
Organiza seus passos e vai.
O caminho tem espinhos,

Mas seus pés são as flores.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Sílabas de Veludo




Hoje estou como a brisa, ondulando ao som do silêncio,
Colhendo asas de borboleta, espalhando o cheiro do verde.
Falta pouco para a amadurescência completa.
Falta pouco para as cores mudarem.
Dou colo á luz solar,
Estendo ao dia inteiro o canto dos pássaros.
Cada uma dessas coisas me trazem mais e mais poesia.
Cada uma dessas coisas me soam como sílabas de veludo.
Cada uma dessas coisas preparam meu corpo para a noite.
Entre óleos e especiarias me perfumo e me deito
Sou a pétala esquecida sobre o tapete:
Pretendia-se enfeite, transformou-se no aroma que entorpece.
Repouso entre almofadas e maciezes,
Tenho os vapores da manhã,
As ansiedades do fim da tarde,
Os sabores da noite caindo,
As sedes por todos os prazeres.
Sirvo-me sobre(a)mesa dos deuses:
Poderia ser pretensão, mas aceito como licença poética.
Sou aquela filha da poesia,
Aquele verbo que não emudece,
Aquele espinho que vai lhe ferir se sofrer mágoas,
Aquele afago que lhe faz esquecer as horas amargas.
Sou aquelas sílabas de veludo que ouvi e amacio seus pensamentos.
Sou a repetição de um tanto de promessas.
Sou o cumprimento de juras vãs.
Sou o tempo se escoando pela janela,
Porque chove lá fora e o som da chuva molha,
Como o som da sua voz quando invade meus sentidos.
Sou mansidões aveludadas, agitações na madrugada.
Pode vir comigo pelo mal caminho, pela vida boa,

Cuido de seus pés e até de seu coração. Não temo.

domingo, 12 de novembro de 2017

Pseudea



Mentem. Mentem todos aqueles textos vazios que lemos nas madrugadas. Mentem as cartas de amor quando prometem eternidades. Não sabem seus autores que o relógio um dia para?
Mentem os sorrisos congelados para as fotos. A efemeridade do clique não deveria merecer tantos créditos. Ou deveria? Seriam esses breves instantes paralisados os nossos reais salvadores nos dias mais tristes? Seriam eles a chave para a volta no tempo, pelos caminhos da memória?
Mentem aqueles que desconhecem as dores ou que dizem lidar bem com ela. A noite chega pra todos. O silêncio. O cansaço. A desistência.
E deve ser esse o ponto de reinício. Ou de início. De ação, pelo menos. De moviment-ação. O descruzar de braços e caminhos. O fim da espera de que as coisas caiam do céu.
E deve ser esse o momento em que os olhos brilham de vontade e a boca se entreabre para deixar o suspiro escapar. E deve ser essa a hora de se segurar as mãos, de soltar o medo e ir.
Mente quem diz não sentir medo algum. Mente quem diz que o caminho é belo. Mas mentem quem só aposta nas sombras. Mente quem acredita que o erro é o desfecho.
E deve ser essa a construção final de toda poesia: ir mais e além do que é dito. Ir mais e além do que se pretendia. Ter a coragem de saber-se  mais do outro do que de si mesmo, porque, se somos em nós, a nossa essência, os valores que construímos, aos outros somos apenas impressões, construções, projeções, reflexos.
E eu gostaria, em dias como o de hoje, ser o reflexo dessa sua retina, pairar nas bordas de seus olhos de café quente: mergulhada nesse monte de mistérios e segredos e descobertas que a vida é.
E eu queria ser, em dias como hoje, a domadora de sentimentos que organiza as racionalidades e encontra a lógica, sem lançar-se passionalmente ao acaso de um bom dia.
E eu desejaria, em um dia como hoje, discordar de todas as verdades absolutas e de todas as meias palavras e de todas as más ações que já vi ou vivi, mas nem sempre o gênio está na garrafa de vinho que abro.
Talvez hoje ele não esteja e mato, gole a gole meus pensamentos mais infantis e os mais adultos: quero permitir-me dormir na leveza, sobre essa cama de uvas, à espera do gênio dos desejos, à espera das saciedades.

Enquanto isso, escorregando na borda da taça, afogando mais um verso ao engoli-lo com o tinto, volto a afirmar que o mundo é cheio de mentiras e mentirosos. E me incluo na lista. Minto quando digo que não acredito. Minto quando me faço poesia. Minto quando digo que não me faço poesia. Minto até quando digo que minto. Porque, para tudo o que sou, há um tudo o que constroem de mim. E, então, serei sempre uma e muitas, conforme os passos que dou e os olhares que me pousam.

sábado, 11 de novembro de 2017

Cerridwen




Não faço ideia do que acontece fora das paredes de meu quarto.
Disseram que choveu o dia todo.
Estou em torpor e, a bem da verdade, pouco importa...
Quem está cinza hoje sou eu.
Quem se desfez em água fui eu.
Debaixo daquele chuveiro,
Misturei-me ao elemento que me rege.
Desrespeitei as regras que caberiam,
Vingando-me de todo o desrespeito que já cometeram comigo.
Lavei bem mais que os cabelos
Lavei escadarias de pensamentos
Contei as gotas finais que caiam,
Somei-as às constelações de afetos que coleciono
E como quem não consegue organizar o que sente,
Recolhi-me como que dentro da caixa de Pandora.
Fico bem com minhas confusões
Fico bem cantando minhas canções
E dançando sob a lua escondida entre as nuvens
Equilibrando girassóis falsos nos cabelos:
Se não mato sentimentos,
Porque haveria de matar a flor?
O que não quer dizer, porém,
Que eu não saiba matar as palavras,
Calar cada uma delas:
Em beijos ou silêncios.
A boca é porta desgovernada:
E qualquer coisa é motivo para ela se abrir ou se fechar
E a chave que alego perdida, está, no fim,
Debaixo de meu travesseiro,
Junto com sonhos, corações e afagos
Que só uso quando muito necessários.


sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Subjuntivo



Não era um cometa,mas riscou meu céu
As paredes ao meu redor eram o universo inteiro
Saiu de uma luz tão brilhante quanto poderia
Tão plena quanto a lua cheia,
Causando inveja nas estrelas que lhe cediam espaço.
Recaio ao brega, ao clichê, à rima barata,
Mas o que se diz dos poetas? Pobres-diabos!
Como se passa uma vida sem tocar essa leveza?
Como se passa uma vida sabendo que se está,
Mas sem saber onde?
Seu passo me acompanhava desde sempre,
Eu sei!
Mas qual o dia que iria te encontrar?
O hoje!
A luz!
O rompimento!
A qual nome responde?
Como eu poderia experimentar a calmaria de suas agitações?
Tantos contos, tantos cantos
E eu andava em círculos,
E eu me perdia em minha cabeça,
Em minha cabeceira, queimando verbos
Perdendo os tempos
Subjuntivo
Sob um céu descolorido
Até seu riso de aquarela chegar.
E foi a curva mais acentuada do caminho:
Brusca realidade
Leve

Afã!

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Aposta




Cheguei desarmada e desalmada.
Não é preciso ter armas para abalos (sísmicos?).
De paixão em paixão venço meus dias.
Não sou de abandonos nem tampouco de caridades.
Sou da lua, dos ciclos, das minhas vontades.
Faz parte da estratégia, do jogo, da aposta.
Roubo sorrisos, invado pensamentos,
Faço seresta no quintal de seu vizinho.
E no seu ouvido, o eco de meu riso.
Se a regra é clara, o tiro é certo:
Vou direto ao ponto,
Sem rodeios, de cabeça,
Sem outra coisa exposta
A não ser a parte da coxa:
Cruzo as pernas e as informações.
Nada há de tão escondido que eu não prove em desconfiança.
Nada há de tão inocente que eu enxergue a malícia.
De você quero o corpo, o suor, o jogo.
Não lhe peço a mão, nos poupo a tensão.
Àquela que está acostumado, seja terno.
A mim, acaso do destino, seja só honesto:
Ganhamos mais na entrega que nas pudicas regras.
Estou à cabeceira da mesa: giro a roleta, faço a aposta
Desisto do jogo se as cartas não forem boas.

Não tenho obrigações a não ser com aquilo em que acredito.

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Dança de Espadas



Danço a noite, a madrugada passa:
Afio o gume da espada e a equilibro bem:
Se na cabeça, corto os pensamentos,
Se no quadril, a vontade não vem.
Fio a fio vou tecendo poemas,
Escrevo com a destreza da artesã:
Tenho dias de costureira, amarrando destinos;
Tenho dias de bordadeira, enfeitando silêncios e desatinos.
Tenho o espaço de uma cama inteira,
Tenho febre contida em lençóis,
Tenho traços de mulher rendeira,
Mas que despe toda renda, quase-faceira.
Tenho nas mãos a magia,
O bem querer, e lhe quero, meu bem!
Mas reservo ao tempo o papel de algoz:
Mata-me ele, lento ou veloz.
Não serei eu a musa da persistência,
Nem carregarei angústias de desistência.
Uso o espelho de Clio,
E tudo aquilo que vi e vivi é guardado na retina,
É tudo aquilo que vi e quis,
Virou reflexo contido às bordas dos cílios,
São histórias do fim dos meus dias:
Se não saciadas as bocas, mãos e quereres,
São aplacadas a mudez, o traço e outros prazeres.
A poesia não é concreta, mas eterna
E, ainda que éter, preenche meus vãos...

Ao contrário de quem só aumenta vaus...

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Simum


"O Simum sobre o Deserto", pintura de David Roberts(1838).

(*Simum vento quente do Saarah, responsável pelo movimento das dunas, cujo nome, em árabe, vem da palavra veneno)

Colha-me do pé à cabeça
Caibo em suas mãos.
Morda a maçã em meu seio
E faça dele, essa hora, sua morada.
Explore os caminhos paralelos,
Descubra todos os véus e tendas
É à noite que Simum* se movimenta,
É à noite que as dunas se movem,
É à noite que se descobre o que é cura e o que é veneno.
Povoe os desertos,
Mergulhe nas fontes,
A essa hora, à sombra das palmeiras me deito:
Sou paisagem e contemplação
Sou a que rege os ritmos, a lunação.
Recebo sua visita e lhe entrego a conta do tempo,
Há de se saber que o fim logo chega.
Há de se saber que o recomeço é opção.
Há de se saber que a sede volta

E que o oásis salva, mas também guarda a perdição.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Cálida




O vento bate na janela
Passam das três: você não vem.
Hoje ela esperou o dia inteiro
Hoje e desde que disse "te espero".
Não há mais horas nos relógios
Não há mais nomes naquela boca.
Entre as palavras-verbos, confusão:
Quero. Espero. Erro.
Não há tanta conjugação
 Não há tempo, gênero, flexão.
No lugar da voz, rouquidão.
Não há nomes, acabou a memória.
É o vento batendo na janela
É o Sol ardendo no lençol
É a pele nua sem ser explorada
É um querer dito só pela ponta da língua,
Mas ela queria ser inteira,
Palavra viva, dita e cumprida,
Mas é silêncio engolido a seco
Melhor calar que falar ao vento


quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Percepções



          Desce sobre nós uma nuvem densa, poeira do tempo perverso que não devia voltar.
    Cerca-nos uma densidade opaca, que entumece discursos tão vazios quanto o estômago das crianças que, até ontem, morriam desnutridas das boas ações, que só enchiam seus ouvidos de promessas.
        Contra essa corrente que quer se prender em meu tornozelo, carrego um sentimento-verbo: luto.
       Por ora, pareço um ser perdido, mais cansado que o calendário atrasado que quer voltar à parede: temo que ao final do dia eu olhe a data e seja um-gris-qualquer-de-1964.
        Luto em tempos que ninguém me ouve. O que houve? Há, por todos os lados uma legião de cegos, moucos e roucos... Não os culpo.
        Cegaram seus olhos com raios fúlgidos, taparam seus ouvidos com discursos odiosos, calaram suas vozes com preces pelas suas sagradas famílias, tão tradicionais (e falidas).
Minhas percepções são outras.
         A mim parece ter cabido a resistência ao cansaço que pousa nos ombros. Restou um amargor de leite azedo pelos seus discursos-veneno, disparados de suas línguas-serpentes, mas não vou engolir. Não sou obrigada. Não somos.
        Vou arquitetando, como posso, meus meios de sobrevivência, ensaiando meus gritos de resistência. Vou dando a maior corda para seu palanque-cadafalso e quero vê-los todos pendurados pelos pescoços, colarinhos brancos.
        Serei não a plateia que assiste ao espetáculo, mas a força que luta, apoiada por outros que pensam como eu, porque há ainda mãos que se estendem a mim, que pensam como eu, que lutam como eu.

    Há, sobretudo, prioridades e, antes das minhas, tenho as bandeiras dos meus semelhantes: se não somos, não posso ser. Dependo do outro e ele de mim. Somos e, por isso, não desisto. Somos e, para isso, o substantivo vira verbo: luto.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Preferências



Em seu corpo latifúndio, minhas mãos se pedem.
Desbravamentos.
Em meu peito menos largo, mais profundo,
Você se instala: de onde vem?
Desconhecimentos.
Não tenho medidas do que é invasão,
Do que é permanência com autorização.
Sou como um objeto ex-abandonado:
Agora em novo contexto, encontrado,
Ganho usos, significados.
Ganho seus sons ao pé do ouvido
E faço deles minha canção preferida.
Talvez eu seja a caixa de música silenciada
Não mais contida, agora despertada:
Sou junções de melodias e sons,
Sou a bailarina estanque, congelada,
Leve, que dança e rodopia,
Aquela peça acrílica e transparente,
Imóvel diante de seus olhos.
Pareço um paradoxo, mas sou feita de realidades.
Sou o encantamento eterno da dúvida:
Quero e não busco
Toco e não sei o que desperto
Recebo mais do que emano?
Giro o mundo, giro no eixo
Giro minha compreensão do estranho humano:
Ainda prefiro mais seu corpo-latifúndio
Ainda respiro mais seu cheiro de perfume vagabundo
Ainda prefiro suas invasões em meu ser
Que ser a boneca-bailarina que outros olhos vêm ver.
Prefiro as agitações de meus medos

Que as calmarias das falsas certezas.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Naturais




Relâmpagos cortaram os céus.
Pisquei os olhos rápido demais.
Um trovão rasgou meus ouvidos
E na velocidade do som tive arrepios.
De repente tudo era um breu,
Meus olhos fechados.
De repente a água jorrava
De repente o vapor subia
Tudo isso me tomava
Eram ares de frio e calor
Eram confusões solúveis em saliva
Eram poucas explicações em nenhuma palavra
Por sorte eu tinha suas mãos:
Contornos nos quais eu me sentia amparada.
O relógio estava abandonado na sala
Precipitamos como as nuvens
Desejosas de um desfazer-se
Reinventamos verbos e fenômenos                                         

Fomos naturais.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Semente




(Poema para o querido Mário Brasil)

É que hoje eu cansei de ser árvore
Cansei de parar os raios
Cansei de envergar com furacões em copos d'água
Cansei da imagem imaculada de força
Cansei até de ter coragem.
Hoje cansei de ser grande.
Árvore frondosa que lhe cedeu abrigo,
Canto de conforto, tempo-espaço-amigo.
Hoje quero me apequenar:
Vou semente virar.
Vou me regar com o sal necessário e útil:
Um tanto de dor, lágrimas incontinentes,
Outro tanto de labor, o suor de minhas (próprias) construções.
Hoje serei a vontade de brotar.
Nada continuidades
Tudo (re)novo,
Tentar (de)novo.              
Tenho o poder da leveza:
Alimento-me de poesia!



quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Ser Novo




Hoje, ele bebeu o medo.
Alegou que foi direto de meus lábios.
Hoje, ele tocou o medo.
Segundo ele, estava bem na ponta de meus dedos.
Eu, ao contrário, não senti nenhum gosto amargo
Não experimentei sensações frias.
Não tremi com o vento da noite
Nem lamentei o lado da cama esvaziado
Porque ainda me lembrava dele preenchido.
Hoje, ele não soube o que fazer.
Não sabia sequer o que havia provado:
Não era medo o que invadia sua alma
Era a liberdade de suas asas.
Elas não estão mais presas!
E tudo o que bebeu e tocou e provou
Resumem-se a uma palavra: novo!

Então, que aceite seu ser novo, de novo.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Batom vermelho


         Onde estão os beijos? Ficaram tão desbotados desde a última vez...
          Eu me lembro do vivo do batom vermelho, marcando sua pele, morrendo nos lábios, saciando vontades, uma sede que vinha de longe.
          Eu me lembro do gosto das palavras impressas no meu corpo pelo seu corpo. Da leitura em braile feita pela ponta da língua, de onde suas palavras moravam e, ao conhecer meu corpo, lhe abandonaram, adotando meu seio como morada.
          Eu me lembro de ser pouco mais que raios ou sóis, lampejos nos seus olhos breus. Rebrilhavam cores. E eu me desfazia com os beijos, como um suspiro no céu da boca.
         Eu me lembro de estar perdida entre o céu e a terra, de ser algo como a água, queda livre, tempestades, pouca paz, muito querer. Mas passou.
          Pousou um mim o lânguido esquecimento, secou-se a alegria de recebê-lo em meu ventre...
         E onde estão os beijos que choviam gratuitos? Guardados em poças mudas? No canto de sua boca que não sorri ou estacionaram em guarda-chuvas que me cobrem e impedem que eu me banhe de amor?

         Onde estão os beijos? Ainda estou perdida a procurá-los. Ainda tenho batom vermelho e o desejo de usá-lo.

domingo, 10 de setembro de 2017

Meu Mundo



         
          Meu mundo são quatro paredes, pelas quais desenhei cometas e estrelas cadentes, pelas quais escrevi bilhetes e poemas. Pelas quais pendurei molduras vazias, buscando um rosto diferente de cada vez.
          Minhas quatro paredes... eis aí a definição de mundo. Nada de grandes espaços, uma fronteira para o mundo, porta sem chave, para quem quiser ficar, entrar, uma janela para o infinito, para que os versos criem asas e as músicas pousem na soleira.
          Eu que não gosto da primavera, hoje recebo flores e pássaros para o café da manhã. Recebo luzes ofuscantes e quentes e vivas e alegres, como aquilo que me move nesse momento. Toco cintilâncias contentes quando me espreguiço nesse domingo.
Eu que pouco me arrisco para fora desse quarto, que o chamo de mundo, que o decoro com toques do mundo: corujas, elefantes, arabescos de mil e uma noites e cores de van Gogh, tudo se harmoniza nesse mundo que eu criei e que, às vezes está aberto à visitação. Hoje, talvez.
          Eu que carrego um colar de prata, um símbolo da chama inquieta que sou, também cedo às pedras da Lua e aos olhos de tigre. Retiro deles energias e aprendizados: a rigidez não exclui a beleza.
          Eu que sou de outonos e invernos, pintei paredes ensolaradas no meu mundo: gosto dos contornos luminosos das tardes findando. Gosto dos alaranjados esperançosos de sabores noturnos que não se podem conter.
          Eu que gosto de cores e sons, de entrelinhas e manhas, serpenteio pela casa como a bailarina se move na música, com certa leveza e confiança: conheço meu espaço, conheço meu mundo.

          Eu que flerto com as tristezas alheias, hoje serei só novidades, serei mais amplitude, serei mais amor que posso ser: entram flores e borboletas pela minha janela. Contaminaram-me com suas asas. Agora só desejo voar pelo dia que me invade, mas pousar, com calma, mais tarde, nesse meu mundo, nas quatro paredes que me cercam e me guardam preciosa.

sábado, 9 de setembro de 2017

Seus Olhos



          Agora, tendo o direito à palavra, de maneira mais clara, mais livre, não sei bem o que fazer. Sou como os pés do caminhante: sei que preciso ir, mas pouco importa o caminho. Em nosso caso, sei o que devo dizer, mas já pouco importa.
          Em verdade, foi em um dia como esse que eu saltei seu olhar a dentro e percebi que havia inventado o amor. Não no meu tempo. Bem antes. Não para mim, para alguém que se foi. Não com as letras de meu nome, mas com sons emudecidos.
           Eu era um lapso no espaço-tempo de seu coração. Se é que cheguei a tocá-lo. Fui uma tentativa de se convencer que tudo passa, mas, na borda de seus olhos, isso não estava escrito e eu pulei. Se soubesse que a mim só caberiam as margens, sequer teria molhado meus lábios. Se soubesse que depois do mergulho só viriam as sombras, eu não teria lhe doado tanta luz.
           Não é um arrependimento que me corre, mas uma vontade de interromper os questionamentos. Uma vontade de acolher essas mágoas nos braços, de transforma-las em novidades, de ouvir suas dores pela última vez, calando-as com meu sorriso, mordendo-as para que deixassem de existir.
            Agora que desprendi-me de toda chama que aquecia meu peito quando ouvia seu nome, posso dizê-lo sem que me corram vontades incompletas pelo rosto. Posso até dizer o quanto é lindo ver seu reflexo atrás de um copo, meio disforme, mas completo, de um modo que eu não percebia, embora tivesse me esforçado.
            Em verdade, o que mais gosto em seus olhos é o fato de ter inventado o amor. De tê-lo vivido a seu modo, a seu tempo, ao seu ritmo e de, ainda que dormente, não tê-lo abandonado. Ele está aí, eu sei. Vestiu-se de medo, mas ainda respira.

            Agora que visitei seus espaços mais humanos, olho pra mim. Questiono se conheço o que chamam de amor. E lamento o meu desconhecimento de causa. Talvez, em todos os meus passos eu só tenha conhecido desenganos, só tenha experimentado os contos encantados, mas, em verdade, nunca tenha me deixado encantar. Faltam-me olhos como os seus.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Coleção




Experimentada a crueza do mundo, as crueldades vãs, sem vantagens ou ganhos, era para o coração cansar de apanhar, parar de sangrar, estancar, se acostumar. Ainda conservaria as dores, as lembranças. Ainda empalideceria ao ouvir passos, ainda tremeria com aquela voz, mas, aos poucos, secaria a fonte.
O cansaço deveria fazer algum efeito, anestesiar, desmoronar os castelos de sonhos, das cartas não escritas, das não respondidas. As pedras dos caminhos deveriam quebrar o restante dos sentimentos, juntar-se aos pedaços de mim no chão, misturar as peças do quebra-cabeça da vida e me fazer parar.
Depois da badalada do relógio na madruga fria e insone eu deveria só dormir. Deveria desistir das camuflagens noturnas, mas ainda sinto que as tristezas não se encerram e que eu não sei para onde irão, mas me abandonarão.
Eu sei que deveria deixar tudo voando, tudo sair pela janela, tudo explodir em migalhas, mas, diante dos quadros estáticos, eu passo, pinto a vida, sou tinta e mesmo sabendo que as palavras não pousarão em seus ouvidos, que as saudades vãs não lhe tocarão a pele, resistirei.
Eu sei que deveria apagar tantas coisas entre nomes e telefones, mas as lembranças não irão junto, então, as faço coleção e as deixo aqui, se (de)morando em mim, partes minhas, histórias minhas, lamentos meus, chuva de verão na vidraça de meus olhos-paisagem.
Eu sei que deveria cessar o canto-pranto-grito, mas ainda sobra fôlego para chegar até o fim do caminho, onde os ecos do passado se calam e o oco do peito se preenche com a esperança madura de quem soube engolir o azedo-verde.

Deveria ser tudo pluma, mas o ar é denso quando não se aprende a respirar e só agora, sem ter as mãos atadas às suas é que toco o chão quando salto do céu, quando meu vestido paraquedas estaciona no chão do quarto.