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quinta-feira, 6 de julho de 2017

Nua




Abro mão de toda poesia. De tudo isso que sou e você pouco percebe. Tiro-a de mim da maneira como posso e, nua, me exponho diante de seus olhos.
Falta-me agora que suas mãos me leiam. Que elas não me faltem. Que elas deslizem sobre mim e arranquem essas roupas que pela manhã combinavam com a luz do dia. Prometi não versar. Prometi não ceder à rima que salta aos lábios porque você acha que elas me escondem bem mais que as roupas. Estou nua à espera de seu toque.
Se ouso ser palavra é para caber entre seus lábios e me desejo mordida, leve, mas com ardor.
Se ouso ser som, projeto-me sussurros e gemidos: preces do corpo febril, quase desesperado pelo sim, pelo não, entre suas mãos, minhas roupas e poesias pelo chão.
Se ouso olhares é porque teimo enxergar o pouco de luz que me mostrou, mesmo imerso em sombras de não-me-quer, mesmo quando só experimentei a superfície. Sou mais que olhares. Sou olhos, buscando alguma profundeza sua, algum resquício de entrega, alguma afeição pelo que é belo, para além dessa arma-dura que me oferece. Ouso, em meio às margens que nos colocamos, devolver parte do frio que me lança: espelho que reflete sua retina. Taça cheia à espera de seu gole. Sou pouco menos amarga que a bebida que lhe entorpece, porque meu doce foi desperdiçado ao chão, junto com minha poesia.
Estou aqui crua, bem mais do que nua, disparando tudo o que pede pra receber e, embora pense ser submissão, chamo de coragem, enfrentamento, doação, paixão.
Pediu-me nua. Recebeu-me crua. Terá nas mãos o fogo que me forja? Terá as rédeas que doma minha fúria? Sou de poucas esperas. O caminho de ida é bem mais curto que o da chegada. O tempo é inexorável e sigo com ele, nua, esquecendo-me que já me quis sua.

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